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domingo, 3 de novembro de 2024

REVISITANDO FERNANDO PESSOA, A ALMA, by Angela

Hoje de alma pura, tenho os olhos diferentes. Sou eu e ainda um outro , em imagem feita no espelho . Aos poucos, desapareço e me componho de novo . E de novo . E outra vez .

Deito no mundo de sorriso largo e aberto , surpreso da não angústia . Sons , cores e formas girando ao redor , atravessando minha silhueta em arco íris colorido . E mais do que tudo , sereno . A calma de fora é como um bálsamo para esta revolta que levo dentro . Me entrego como aprendiz ao Mestre e à dádiva de paz que recebo dele .

Ele em mim mostra uma face estranha e calma . Calma ? Surpreso , sacudo dos ombros o peso de tudo . Estou imóvel ouvindo a fala mansa que tenho e não sabia . Pastoreando um rebanho que nunca foi meu . O Mestre me reflete como o pai que não tive e busquei por todas as minhas vidas .

Sou eu tão Velho e tão Jovem na tranquilidade de noites que são dias e dias que são noites , simplesmente passando , passando e tornando a passar .

Grama verde , flor amarela , pássaro azul . Ou seria grama amarela , pássaro verde , flor azul ? Quem sabe ? Agora os posso conhecer sem o orgulho de ser Criador e por isso estou leve , leve , cada vez mais leve . Flutuo e penetro na essência do Universo que é meu , cada célula pulsando brilhante e viva , crescendo de fora para dentro .

Sensação desconhecida e nova , prazer simples de existir .

Ele me ensinou o segredo . E eu ? Eu o matei em mim , esgotado dessa

Alberto Caeiro era um dos mais famosos heterônimos de Fernando Pessoa , que ele começou a utilizar em 1914 e a imprimir em 1925. Em sua biografia fictícia , Alberto teria nascido em Lisboa , em 16 de abril de 1889, e falecido em 1915. E viveu a maior parte da sua vida em uma vila do Ribatejo .

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